A gravura que vejo é significativa, não consigo saber de quem é a tela, enxergo um menino descamisado, de costas para mim. A sua frente uma parede que me parece sólida, espessa e suja. Seguem, assim, este mesmo padrão, as paredes que envolvem as laterais do corpo descamisado do menino. Esta gravura é significante de uma estrutura que, pensamos, já vai tardia, longe…Imagem lúgrube e triste das celas dos abrigões da Fundação de outrora.

Na gravura, uma realidade concreta e triste.Assume-se nela o trancafiar da infância, a subjugação em cinza, as amarras do não querer que cresça, do esconder do mundo, do desejo de que,simplesmente, desapareça.
Um infanticídio atroz, o da gravura mórbida.Um infanticídio que começa na concepção, passa pelo maltratado nicho amaldiçoado da miséria, perpassa as ruas gradeadas e lacradas de muros altos e eletrocutantes, transpassa as feridas abertas dos semáforos e o medo insano desta sociedade vil de perder os seus espaços de poder no aumento da capacitação social.
O sol, nesta gravura, não está saiu de fininho para passear em shoppings e playgrounds da classe média. Na gravura, não há janelas ou frestas, apenas há o brilho das costas do menino descamisado.Bem claro e luz é o corpo do menino. O corpo do menino é a única luz na cela morta.
A tela retrata o abstrato da cela concreta, porém, é sentimento sólido que aqui relato.Abstraio da tela uma realidade mórbida que abraça o menino e apaga sua luz.Curiosamente, ao meu redor, a AFUFE, Associação que viabiliza meus sonhos médios de trabalhadora, o balcão da entidade e,na minha frente, a tela.
Eu,cuidadora que sou nunca quis apagar luz nenhuma de ser algum, mas, de repente, sinto-me parte das paredes da tela, apesar de ter querido ser estrado, apoio e candeeiro.
O meu tempo de espera termina, mudo de idéia e esquecendo a gravura, volto para minha rotina de seis horas com um plantão de final de semana.
Janete Albini
( Texto escrito pela colega Janete Albini, sobre o quadro que está na recepção da AFUFE)